Antoni Gaudí: há 100 anos, arquiteto que projetou Sagrada Família foi confundido com sem-teto e morreu após ter ajuda negada

  • 10/06/2026
(Foto: Reprodução)
Retrato de Antoni Gaudí de 1878 Pablo Audouard Deglaire/Reprodução Era o início da noite em Barcelona quando um senhor de roupas amarrotadas atravessou distraído a Gran Via de les Corts Catalanes, apoiado em sua bengala, e foi surpreendido por um bonde vindo em sua direção. Ele tentou desviar, sem ver que um outro bonde se aproximava, no sentido contrário. O velho homem foi atingido em cheio e caiu inconsciente em plena avenida. A cena atraiu vários curiosos, mas, pelo seu aspecto, ele foi tido como um sem-teto, e a maioria dos transeuntes não se preocupou em ajudá-lo. ✅ Clique aqui para seguir o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Aquele homem era o arquiteto Antoni Gaudí i Cornet (1852-1926). Nesta quarta-feira (10), centésimo aniversário de sua morte, o papa Leão XIV celebra uma missa dentro de sua obra mais famosa, a Basílica da Sagrada Família, na capital catalã. Igreja da Sagrada Família em Barcelona inaugura Torre de Jesus Cristo Apenas duas pessoas se dispuseram a tentar socorrer Gaudí. Por quatro vezes, eles tentaram fazer um táxi parar e levar o velho ferido para o hospital — por quatro vezes, os condutores se negaram. Finalmente, após uma longa espera, um guarda civil se aproximou do local e obrigou um quinto táxi a parar e levá-lo para onde pudesse ser atendido. No dispensário da Ronda de San Pedro, que já não existe mais, os médicos constataram diversas fraturas e um sangramento pelo ouvido. Também anotaram no prontuário que ele não levava consigo nenhum documento – apenas o livro dos Evangelhos, um rosário, um lenço e uma chave. Ainda com status de indigente, ele foi transferido ao hospital de Santa Creu. Só no dia seguinte ele foi reconhecido pelo capelão da Sagrada Família, cuja construção estava em seus primeiros estágios: tratava-se de ninguém menos que o próprio criador da edificação, que se tornaria um dos cartões-postais mais famosos da Europa. 'Arquiteto de Deus' Rua vazia em frente a um dos principais pontos turísticos de Barcelona, a catedral da Sagrada Família Reuters/Nacho Doce Gaudí agonizaria ainda por três dias, mas a gravidade dos ferimentos fez com que ele morresse aos 73 anos, em 10 de junho de 1926. Entre o atropelamento e o óbito, a notícia correu pelas ruas de Barcelona, e o acidentado “anônimo” teve a morte anunciada pelos mais diversos jornais espanhóis. Seu funeral foi acompanhado por uma multidão em um cortejo que terminou no canteiro de obras da Sagrada Família, onde seu corpo foi sepultado. Até hoje, seus restos mortais permanecem na mesma cripta do templo. Católico fervoroso, Gaudí foi apelidado de “arquiteto de Deus”. Com as obras previstas para terminarem em 2032, a Sagrada Família foi consagrada apenas em 2010, pelo papa Bento 16. Na ocasião, o papa alemão elogiou "o gênio de Antoni Gaudí" que, "inspirado pelo ardor de sua fé cristã, conseguiu transformar esta igreja em um louvor a Deus feito de pedra". Ao ser proclamado venerável, a Igreja reconhece as “virtudes heroicas” do arquiteto catalão. O ato precede a beatificação, que requer o reconhecimento de um milagre. Um segundo milagre validado pelo Vaticano é então necessário para obter o status de "santo" com a canonização, geralmente no final de um longo processo que dura vários anos. Modernismo catalão Gaudí chegou a Barcelona em 1868 para estudar arquitetura, tornando-se o maior nome do modernismo catalão no fim do século 19. Foi na capital da região autônoma que ele deixou algumas de suas obras mais famosas, como o Parque Güell, a Casa Milà e a Casa Battló. Estas e outras quatro edificações foram tombadas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Sua obra mais famosa, no entanto, é a Sagrada Família, à qual ele se dedicou de 1883 até sua morte. Profundamente religioso, Gaudí tomou seu trabalho como um sacerdócio. Segundo seus biógrafos, ele parece ter se apaixonado uma vez na vida por uma mulher, mas sem ser correspondido. Dessa forma, permaneceu solteiro até o fim da vida. À medida que amadurecia, o arquiteto passou a adotar um modo de vida excêntrico, com hábitos frugais, vestindo-se com trajes velhos e sem cuidado com sua aparência. Um de seus costumes era fazer longas caminhadas diárias, inclusive no dia de sua morte, quando ele se dirigia à igreja de San Felipe Neri, para se encontrar com seu amigo e confessor, o padre Agustí Mas.

FONTE: https://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2026/06/10/antoni-gaudi-ha-100-anos-arquiteto-que-projetou-sagrada-familia-foi-confundido-com-sem-teto-e-morreu-apos-ter-ajuda-negada.ghtml


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