Ex-alunas se dizem aliviadas após condenação de professor da USP por transfobia: 'Justiça se posicionou'
16/05/2026
(Foto: Reprodução) Ex-alunas travestis se dizem aliviadas após condenação de professor da USP por transfobia
Sentimento contraditório. Assim que as médicas Louise Rodrigues e Stella Branco, ex-alunas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), definem a condenação do professor Jyrson Guilherme Klamt a três anos e dez meses em regime aberto pelo crime de transfobia.
🔎Para penas menores a quatro anos, o regime aberto geralmente é cumprido em liberdade, com algumas restrições impostas pelo juiz.
O caso aconteceu em novembro de 2023, por conta de uma discussão sobre o uso livre de banheiros na universidade, conforme identificação de gênero. A sentença, em primeira instância, foi proferida na semana passada, quase três anos depois. A defesa de Klamt informou ao g1 que irá recorrer.
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"É um sentimento contraditório receber essa sentença, porque traz tudo à tona novamente, mas é um alívio pensar que a Justiça brasileira se posicionou neste fato, objetivamente neste processo, em relação a tipificar a transfobia enquanto um crime", disse Stella ao g1.
À época dos fatos, as alunas foram confrontadas, ofendidas e ameaçadas pelo professor em uma conversa sobre o assunto no refeitório da universidade no último dia de aula. (entenda mais abaixo)
Para Louise, a condenação abre um debate importante sobre a dignidade e o direito das pessoas trans no Brasil.
"Vem como um momento importante, não só para a gente, dentro desse processo de violência, mas de uma importância estrutural dentro do debate sobre o uso de banheiros por pessoas trans no Brasil. Muito mais no sentido de trazer esse debate no modo nacional, de colocar em evidência esse debate sobre a dignidade das pessoas trans no Brasil, sobre o direito das pessoas trans no Brasil e enfatizar um debate sério, respeitoso, que leve consideração a humanidade dessas pessoas".
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Além da condenação, a sentença também determinou que o professor pague um salário mínimo todo mês durante um ano para uma instituição que presta serviços para a comunidade LGBT+. Stella e Louise vão receber R$ 10 mil cada uma por reparação moral.
Advogado das médicas, Everton Reis vê a condenação como histórica, principalmente quando se analisa os direitos de pessoas trans no país.
"Falar sobre o que aconteceu com a Louise e a Stella é trazer um panorama que sai de um processo revitimizador para reforçar que a resistência está presente desde a entrada delas, até a denúncia delas, até o reconhecimento em procedimentos administrativos, onde esse docente é suspenso duas vezes, uma vez pela FMRP e outra vez pelo HC, para a gente desaguar em uma ação penal e por uma condenação respectiva, que precisa marcar o contexto histórico do Brasil".
Em 2025, pelo 18º ano consecutivo, o Brasil apareceu no topo da lista dos países que mais matam pessoas trans no mundo, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).
Louise e Stella se conheceram na faculdade de medicina da USP em Ribeirão Preto, SP, e compartilharam processo de transição
Arquivo pessoal
Procurada pelo g1, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP informou, por meio de nota, que instaurou processo administrativo interno assim que tomou ciência do fato, tendo conduzido apuração por meio de Comissão Processante constituída nos termos da legislação vigente. Ainda segundo a FMRP, o professor cumpriu a penalidade e atualmente este processo está encerrado.
Com relação à sentença judicial, a FMRP informou que decisão foi recebida na segunda-feira (11) e encaminhada à Procuradoria Jurídica e ao RH da USP.
"Até o presente momento, não há novas informações quanto à eventual adoção de providências pela unidade. A Faculdade reafirma seu compromisso com o respeito à diversidade e à integridade de sua comunidade acadêmica".
Reviver o processo
A condenação do professor Jyrson Guilherme Klamt fez com que Stella e Louise revivessem o caso e, para elas, esta parte foi dolorosa.
"Foi um momento de reviver essa situação de violência mais uma vez, de revisitar esses momentos, todo esse processo que a gente vem passando desde o momento da violência, fazer a denúncia, abrir o boletim de ocorrência e todos os trâmites burocráticos, as entrevistas que a gente já tinha dado. Isso acaba sendo um processo também de sofrimento para a gente, em ter que reviver esse processo de violência, e ver como que esse debate sobre a dignidade, sobre o direito das pessoas trans no Brasil ainda é muito incipiente", diz Louise.
Ainda assim, as duas consideram essencial passar pelo processo novamente como forma de mandar um recado para quem ainda acha que poderia ficar impune. Desde 2019, o Superior Tribunal Federal (STF) considera a transfobia como crime de racismo.
"Pensar que um professor universitário acaba recebendo essa sentença é muito importante, porque mostra alguns caminhos que reiteram o que a Justiça já havia decidido. Fico imaginando quantas outras pessoas não passam por isso e desistem de levar para frente dadas as resistências que o sistema coloca, então acho que é importante, porque manda um recado para a sociedade de que essa decisão está sendo colocada em prática e está sendo legitimada", aponta Stella.
Stella e Louise se abraçam após conquista da graduação na medicina da USP em Ribeirão Preto, SP
Arquivo pessoal
Preconceito e ameaça
Louise Rodrigues e Stella Branco foram as primeiras alunas travestis da história do curso de medicina em Ribeirão Preto. Em novembro de 2023, elas contaram que foram ofendidas e ameaçadas pelo professor Jyrson Guilherme Klamt no refeitório do campus, às vésperas da formatura.
Na época, a faculdade havia implementado o uso livre de banheiros no prédio, conforme identificação de gênero.
"Esse professor se aproximou, já em tom de deboche e ironia, e começou a falar coisas de formas irônicas, pejorativas. Ele emendou e perguntou pra mim qual banheiro eu iria usar a partir de agora. Nesse momento eu devolvi perguntando qual banheiro ele achava que eu deveria utilizar. Ele não respondeu e voltou a falar o quão absurdo ele achava pessoas trans usarem o banheiro de acordo com o gênero que se identificam e que a faculdade já não era mais a mesma", disse Louise.
As duas jovens ficaram sem reação ao escutar o professor e disseram que ele prosseguiu com ameaças e ofensas.
"Aí ele se manifesta dizendo que se a gente usasse o banheiro em que a filha dele estivesse presente, a gente sairia de lá morta. Sem contar que durante toda abordagem ele me tratou no masculino. Já era um professor que me conhecia, sabia meu nome, já tinha passado em uma aula com ele e ele já tinha passado por situações de desrespeito com meu pronome, mas nunca direcionado. Dessa vez ele veio diretamente a mim", afirmou Louise.
Punições administrativas
As estudantes registraram um boletim de ocorrência por ameaça e injúria racial. Em agosto de 2024, Klamt foi afastado do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto por 180 dias. Com a medida, aplicada em tom punitivo, ele ficou suspenso de todas as atividades clínicas no hospital.
Em outubro de 2024, ele foi suspenso das atividades na Faculdade de Medicina por 90 dias. Na época, a universidade ainda determinou que ele frequentasse um curso de letramento em identidade de gênero e sexualidade promovido pela Comissão de Inclusão e Pertencimento da própria instituição.
A EPTV, afiliada da TV Globo, apurou que o professor já voltou a dar aulas.
O professor Jyrson Guilherme Klamt foi condenado a três anos e dez meses de prisão em regime aberto por transfobia contra duas alunas travestis do curso de medicina da USP de Ribeirão Preto (SP)
Arquivo pessoal
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