Medo da tecnologia faz universitários abandonarem estes cursos e migrarem para áreas 'à prova de IA'
16/05/2026
(Foto: Reprodução) Como a IA está impactando o trabalho de freelancers
Há dois anos, Josephine Timperman chegou à faculdade com um plano. Ela escolheu cursar análise de negócios, imaginando que aprenderia habilidades específicas que se destacariam no currículo e a ajudariam a conquistar um bom emprego após a graduação.
Mas o avanço da inteligência artificial (IA) mudou esse cenário. As competências básicas que ela estava desenvolvendo, como análise estatística e programação, agora podem ser facilmente automatizadas.
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"Todo mundo tem medo de que os empregos de nível inicial sejam substituídos pela IA", disse a estudante de 20 anos da Universidade de Miami, em Ohio.
Há algumas semanas, Timperman trocou de curso e migrou para marketing. Sua nova estratégia é usar a graduação para desenvolver pensamento crítico e habilidades interpessoais — áreas em que os humanos ainda têm vantagem.
“Não basta apenas saber programar. É preciso saber se comunicar, construir relações e pensar criticamente, porque, no fim, é isso que a IA não pode substituir”, afirmou Timperman.
Josephine Timperman, estudante da Universidade de Miami
(Foto AP/Jeff Dean)
Ela mantém a análise de dados como disciplina optativa e planeja se aprofundar no tema em um mestrado de um ano.
Estudantes universitários dizem que escolher uma área “à prova de IA” é como mirar em um alvo em movimento. Eles se preparam para um mercado de trabalho que pode ser profundamente diferente quando concluírem os estudos.
Como resultado, muitos estão repensando seus caminhos profissionais. Cerca de 70% dos universitários veem a IA como uma ameaça às perspectivas de emprego, segundo pesquisa de 2025 do Instituto de Política da Harvard Kennedy School.
Ao mesmo tempo, levantamentos recentes da Gallup mostram que trabalhadores americanos estão cada vez mais preocupados com a possibilidade de serem substituídos por novas tecnologias.
Estudantes buscam cursos que valorizem habilidades “humanas”
A incerteza parece maior entre aqueles que optam por cursos de tecnologia e áreas profissionalizantes. Nesses casos, os estudantes sentem que precisam dominar a IA, mas também temem ser substituídos por ela.
Uma pesquisa da Quinnipiac aponta que a maioria dos americanos considera “muito” ou “um tanto” importante que universitários aprendam a usar IA.
Dados da Gallup Workforce indicam ainda que a adoção da tecnologia é mais acelerada em áreas ligadas à tecnologia. Por outro lado, cursos nas áreas de saúde e ciências naturais tendem a ser menos impactados por essas mudanças, também segundo a Gallup.
“Vemos estudantes mudando de curso o tempo todo. Isso não é novidade, mas normalmente acontece por diversos motivos”, afirmou Courtney Brown, vice-presidente da Lumina, organização sem fins lucrativos voltada à educação. “O fato de tantos alunos dizerem que a decisão está relacionada à IA é surpreendente.”
Uma pesquisa recente da Gallup com jovens da Geração Z (entre 14 e 29 anos) mostra um aumento do ceticismo em relação à tecnologia. Embora metade dos adultos dessa geração use IA ao menos semanalmente — e os adolescentes relatem um uso ainda maior — muitos enxergam desvantagens e se preocupam com impactos nas habilidades cognitivas e nas oportunidades de trabalho.
Cerca de 48% dos jovens trabalhadores afirmam que os riscos da IA no mercado superam os possíveis benefícios.
Parte do desafio para esses universitários é a falta de respostas claras. Especialistas que costumam orientar suas decisões — como professores, conselheiros e pais — também enfrentam incertezas.
“Os alunos estão tendo que lidar com isso praticamente sozinhos, sem um mapa claro”, disse Brown.
Josephine Timperman trocou Análise de Negócios por Marketing
Foto AP/Jeff Dean
Essa dúvida ficou evidente no mês passado na Universidade de Stanford, onde lideranças de diversas instituições se reuniram para discutir o futuro do ensino superior. Entre os principais temas estava o impacto da IA, que já transforma a forma de aprender e obriga educadores a rever métodos de ensino.
“Precisamos refletir seriamente sobre o que os alunos devem aprender para ter sucesso no mercado de trabalho daqui a 10, 20 ou 30 anos”, disse Christina Paxson, presidente da Universidade Brown.
“E a verdade é que ninguém tem essa resposta”, completou.
“Acredito que comunicação e pensamento crítico serão fundamentais. As bases de uma formação ampla podem ser mais relevantes agora do que aprender, por exemplo, uma linguagem específica de programação.”
A ansiedade também atinge estudantes de ciência da computação.
Ben Aybar, de 22 anos, formado pela Universidade de Chicago na primavera passada, se candidatou a cerca de 50 vagas — principalmente em engenharia de software — sem conseguir sequer uma entrevista. Diante disso, optou por iniciar um mestrado em Ciência da Computação. Paralelamente, conseguiu um trabalho de meio período como consultor de IA para empresas.
“Profissionais que sabem usar IA serão muito valorizados”, disse Aybar.
Ele acredita no surgimento de novos cargos que exigirão domínio da tecnologia, especialmente para quem consegue traduzir conceitos complexos de forma simples. “Saber se comunicar e interagir de maneira genuinamente humana é mais valioso do que nunca.”
Na Universidade da Virgínia, Ava Lawless, estudante de ciência de dados, questiona se seu curso ainda é uma boa escolha, mas não encontra respostas claras.
Alguns orientadores acreditam que a área continuará relevante, já que esses profissionais desenvolvem modelos de IA. Ainda assim, ela se depara com análises pessimistas sobre o mercado de trabalho.
“Isso me deixa um pouco sem esperança em relação ao futuro”, disse Lawless. “E se, quando eu me formar, não houver mais espaço para essa profissão?”
Ela considera migrar para artes plásticas, sua segunda área de interesse.
“Cheguei a um ponto em que penso que, se não conseguir trabalho como cientista de dados, talvez seja melhor me dedicar à arte”, afirmou. “Se existe o risco de ficar desempregada, prefiro ao menos fazer algo que eu realmente ame.”